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O que aconteceu com Moisés? Ele morreu ou foi transladado?

Estava estudando o Livro de Deuteronômio, um daqueles estudos que a gente faz sem esperar grandes surpresas, quando me deparei com uma nota no Auxílio de Estudo das Escrituras dizendo que Moisés havia sido transladado.

A informação me pegou de surpresa porque eu tinha acabado de ler, ali mesmo em Deuteronômio 34:5–6, que Moisés havia morrido na terra de Moabe e que o Senhor o sepultara num vale, e que ninguém sabia onde ficava aquele túmulo.

Para mim, até aquele momento, a história parecia encerrada. Um profeta grandioso que precisou ser sepultado apenas aos olhos do Senhor para que futuramente não virasse um símbolo de adoração, a história de Moisés parecia ter sido encerrada.

Mas a nota dizia outra coisa, dizia que ele foi transladado, então fui buscar mais luz e conhecimento para esse assunto, através das fontes mais seguras que são as escrituras e manuais oficiais da Igreja.

Então, fui direto para Judas 1:9, onde está registrado que o arcanjo Miguel disputou com o diabo pelo corpo de Moisés. Fiquei olhando para aquele versículo por um bom tempo, tentando encaixar as peças.

Por que Satanás disputaria o corpo de alguém que havia morrido? Por que Miguel precisaria intervir? E se Moisés foi sepultado, como pode ter sido transladado? As perguntas iam chegando em sequência, uma após a outra, e foi preciso pesquisar e entender o contexto histórico de cada detalhe nas escrituras para trazer uma resposta que fizesse sentido para mim.

O problema com o final de Deuteronômio

A primeira coisa que aprendi nessa investigação é que o relato da morte de Moisés provavelmente não foi escrito por ele. Parece óbvio quando você para pra pensar, afinal, como alguém escreve o próprio elogio fúnebre? 

Moisés não é Brás Cubas, um defunto autor, que escreveria um livro após morrer. Então quem o fez? A quem pertence as palavras finais de Deuteronômio? 

Nesse manual do Velho Testamento encontrei o seguinte:

“Moisés é o autor de Deuteronômio. (…) A explicação da suposta morte de Moisés e do subsequente elogio fúnebre (ver Deuteronômio 34:10) foram acrescentados após Moisés ter sido transladado.”

Estudiosos de diferentes tradições acreditam que os últimos capítulos do livro foram acrescentados por outra pessoa, talvez Josué, ou por outro escriba inspirado que viveu depois de Moisés. Não há certeza absoluta sobre isso. Esse tipo de acréscimo era comum na tradição literária do Velho Testamento.

O próprio Livro de Josué tem uma situação parecida. O texto menciona que Josué escreveu parte dos acontecimentos (Josué 24:26), mas não sabemos exatamente quem compilou o livro inteiro. As escrituras do Velho Testamento passaram por séculos de transmissão, compilação e tradução antes de chegarem até nós. Isso não as torna menos sagradas, mas nos convida a lê-las com mais atenção ao contexto.

O que parecia ser a cena final da vida de Moisés pode ter sido, na verdade, a interpretação de alguém que não estava presente, alguém que sabia que Moisés havia desaparecido misteriosamente e tentou registrar os fatos da melhor forma que conseguia.

A peça que faltava: Alma 45:19

Foi no Livro de Mórmon que encontrei a explicação mais direta. Em Alma 45:19, o texto fala sobre o desaparecimento do profeta Alma e, ao fazer isso, menciona Moisés de passagem, de um jeito que deixa tudo mais claro.

O povo acreditava que Alma havia sido “levado pelo Espírito”, assim como Moisés. E o próprio texto afirma: “O Senhor tomou Moisés para si.” Não diz que ele morreu. Não diz que foi sepultado. Diz que o Senhor o tomou. Isso é transladação.

É fácil confundir transladação com ressurreição, mas são coisas distintas. Uma pessoa ressuscitada já passou pela morte e recebeu um corpo glorificado e permanente. Cristo é o primeiro exemplo disso, chamado de “as primícias dos que dormem” (1 Coríntios 15:20).

Já uma pessoa transladada é transformada de tal maneira que não experimenta a morte comum naquele momento. Ela continua com um corpo físico, mas alterado, preservado para cumprir propósitos que Deus ainda tem para ela.

Moisés não foi o único nessa condição. Elias foi arrebatado ao céu num carro de fogo (2 Reis 2:11). João, o Amado, recebeu a promessa de que permaneceria até a volta do Senhor (João 21:22–23). Os Três Nefitas do Livro de Mórmon passaram por uma transformação semelhante. Em cada caso, a transladação tinha um propósito, essas pessoas ainda tinham algo a fazer.

O Manual do Professor do Seminário do Velho Testamento da Igreja é bem claro sobre isso:

“Moisés foi transfigurado. A explicação da suposta morte de Moisés e do subsequente elogio fúnebre foram acrescentados após Moisés ter sido transladado.”

Ou seja, o capítulo final de Deuteronômio não é o relato de uma morte real, é a tentativa de um escriba posterior de registrar um evento que, na verdade, ainda não tinha sido plenamente compreendido.

O Monte da Transfiguração: Moisés no Novo Testamento

Em Mateus 17:3, Jesus sobe ao monte com Pedro, Tiago e João, e lá aparecem Moisés e Elias, ministrando diante deles.

Eu já havia lido esse trecho várias vezes ao longo da vida. Mas agora ele fazia mais sentido e fiz a conexão do conhecimento do Livro de Mórmon com o que já tinha lido na Bíblia, mas não tinha dado relevância. 

Se Moisés tivesse simplesmente morrido séculos antes, como poderia aparecer ali com um corpo físico, interagindo com os apóstolos? E mais: naquele momento, antes da ressurreição de Cristo, ainda não havia ressurreição permanente para ninguém. Jesus era “as primícias”, o primeiro. Moisés, portanto, não poderia estar ressuscitado.

A única explicação que faz sentido é que ele estava transladado, preservado, guardado para aquele momento específico no ministério do Salvador.

E por que aquele momento era tão importante? A história da Restauração ensina que Moisés e Elias apareceram ali para conferir as chaves do sacerdócio, autoridades sagradas necessárias para a condução da obra de Deus na terra. Moisés detinha as chaves do ajuntamento de Israel. Elias trouxe as chaves relacionadas ao poder de selar. 

Fiquei pensando em como esse padrão se repete: Deus não deixa suas chaves se perderem quando uma dispensação termina. Ele as preserva, e às vezes preserva também quem as detém.

Voltando a Judas 1:9, agora com outros olhos

Com tudo isso em mente, voltei ao versículo que havia me intrigado no começo. Em Judas 1:9, Miguel disputa com o diabo pelo corpo de Moisés. Antes, aquilo parecia uma passagem estranha, quase deslocada. Agora começava a fazer mais sentido.

Muitos estudiosos acreditam que Judas estava citando uma tradição judaica antiga chamada “A Assunção de Moisés“, um texto que circulava na época e narrava o episódio. A referência não era obscura para os leitores do primeiro século; eles entendiam o contexto.

Do ponto de vista doutrinário, o que me ficou claro é que Satanás tinha um interesse real em impedir o propósito de Deus relacionado a Moisés. Se o profeta havia sido transladado para cumprir funções futuras, inclusive a aparição no Monte da Transfiguração, havia um motivo para o adversário tentar interferir. Miguel, identificado nos ensinamentos da Restauração como Adão, atuou como guardião desse propósito.

Isso não é uma historinha fantástica que a gente lê para as crianças. É algo consistente com o restante das Escrituras: o adversário tenta bloquear os planos de Deus, e há seres de autoridade que os defendem. A disputa em Judas 1:9 não é um episódio isolado, é mais um capítulo num conflito que atravessa toda a história sagrada.

O que aprendi com tudo isso

Quando comecei aquele estudo de Deuteronômio, não imaginava que ia terminar aqui. Mas eu amo quando as dúvidas chegam e me dão curiosidade para buscar a verdade por meio das escrituras e da influência do Espírito, claro que eu também entro em contato com alguns amigos que sei que entendem muito do assunto para me dar uma colinha. Tudo isso me lembrou também por que vale a pena estudar as Escrituras com paciência e sem pressa.

A primeira coisa que aprendi é que o Livro de Mórmon não é apenas um livro independente, ele é uma chave interpretativa para passagens difíceis da Bíblia. O que Deuteronômio deixava em aberto, Alma 45:19 esclarece. Não porque a Bíblia seja falha, mas porque as Escrituras, juntas, são mais completas do que qualquer uma delas sozinha.

A segunda coisa é que Deus trabalha num horizonte de tempo muito maior do que o nosso. A transladação de Moisés não foi um acidente nem um enigma que precisamos enfiar goela abaixo. Foi parte de um plano que se estendeu por séculos, da saída do Egito até o Monte da Transfiguração. 

A terceira é que tudo aponta para Jesus Cristo. Moisés foi preservado para servir ao ministério do Salvador. As chaves que ele transmitiu no monte tinham como destino a edificação do reino de Deus. A história de Moisés não é sobre Moisés, é sobre Cristo, e sobre a continuidade do plano divino em direção a Ele.

Por fim, aprendi, ou talvez reaprendi, que a Restauração existe justamente para unir essas peças que pareciam soltas. O que era confuso em Deuteronômio, enigmático em Judas e aparentemente impossível em Mateus encontra uma lógica coerente quando lemos com os olhos da revelação restaurada. Não precisamos inventar explicações. Elas já foram dadas!

Um profeta e um plano que continua

Moisés não foi uma alegoria. Não foi um personagem construído para representar simbolicamente a libertação de um povo. Ele foi um homem real, chamado por Deus, que viveu de forma extraordinária e partiu de uma maneira que ainda nos causa espanto e, pelo visto, foi proposital.

Seu destino, a transladação, a aparição no Monte da Transfiguração, o papel nas dispensações do evangelho são um testemunho de que Deus não abandona seus servos nem suas promessas. E que a história do plano divino é muito maior do que qualquer capítulo isolado das Escrituras consegue mostrar.

Nem tudo foi revelado sobre esses eventos. Há detalhes que continuam velados. Mas o suficiente foi dado para que eu, e espero que você também, possa confiar: Deus sabe o que faz, cuida dos seus e conduz a história em direção a Jesus Cristo.

Moisés entrou no reino de Deus? Pelo que as Escrituras revelam, sim, ele mudou completamente sua vida para ser merecedor de estar com o Senhor e ser guardado por Ele.

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