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Por que termos como “santinho” ganharam conotação negativa?

Êxodo 35 a 40 é o tipo de texto que testa a paciência do leitor moderno. Páginas e mais páginas descrevendo cortinas, argolas, tábuas, metais e tecidos para a construção do tabernáculo. Para quem está acostumado com leituras rápidas, parece um manual de obra. Mas há uma pergunta que muda completamente tudo isso: por que Deus, logo depois de libertar Seu povo da escravidão, Se preocupa tanto com os detalhes de uma tenda?

A resposta está no propósito. O tabernáculo não era uma construção religiosa qualquer. Era o lugar onde Deus habitaria no meio do Seu povo. E cada detalhe: as medidas, os materiais, os rituais, mostrava o real desejo do Senhor para Seus filhos que estavam no deserto. Direcionava tudo para Cristo.

A cortina que separava o Santo do Lugar Santíssimo simbolizava a separação entre o homem pecador e a presença de Deus, a mesma que se rasgaria no momento da crucificação. Os sacrifícios descritos em Levítico não eram superstição primitiva: eram lições visuais, repetidas geração após geração, sobre o custo real do pecado e a promessa de uma expiação futura.

O que Deus estava fazendo com Israel não era apenas legislar. Era educar. Era pegar um povo que havia passado séculos em cativeiro e conduzi-lo, passo a passo, a entender quem Ele era e quem eles poderiam se tornar. Santidade, nesse contexto, não era um conjunto de regras para cumprir, era uma identidade para desenvolver.

“Santos sereis, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo.”

A frase de Levítico 19:1 não é uma ameaça, é um convite do Senhor para todos nós.

Santidade e felicidade são a mesma direção

Há uma tendência humana de colocar santidade e felicidade em lados opostos, como se uma excluísse a outra. Como se ser mais santo significasse automaticamente ser mais sério, mais fechado, mais distante das alegrias comuns da vida. Essa percepção está tão enraizada que quase passa despercebida, até que alguém a questione e reflita sobre o assunto.

O Presidente Henry B. Eyring faz exatamente isso no discurso Santidade e o plano de felicidade. Ele conecta, sem rodeios, esses dois conceitos: “uma maior felicidade vem de uma maior santidade pessoal.” Para o Presidente Eyring, santidade não é o oposto da felicidade. É o caminho para ela. E ele deixa claro que esse caminho passa necessariamente por Cristo: é “por meio da fé em Jesus Cristo, do arrependimento contínuo e de guardarmos os convênios” que somos capazes de reivindicar a felicidade duradoura.

Enxergar a santidade dessa forma, muda o nosso desejo de nos tornarmos santos. As leis de Levítico, as ordenanças do tabernáculo, os sacrifícios, não eram fardos impostos por um Deus exigente, mas ferramentas oferecidas por um Pai que conhece a natureza humana melhor do que qualquer ser humano conhece a si mesmo.

Quando Deus pede santidade, Ele não está pedindo performance religiosa, um show de caridade. Está oferecendo um processo de transformação que, com o tempo, produz algo muito mais significativo para nós: uma vida com mais paz, mais integridade e, no fim, mais alegria.

O problema é que esse processo é interior, silencioso e gradual. E o mundo tem dificuldade em aceitar aquilo que não se vê, que não se recebe crédito.

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Onde a distorção começou

Cristo foi o pregador mais duro com os hipócritas religiosos de Seu tempo, mais do que com qualquer outro grupo. Os fariseus não eram pessoas malévolas por natureza. Eram estudiosos da lei, comprometidos com a tradição religiosa, disciplinados em suas práticas.

O problema não estava no que faziam, mas no que havia acontecido com o porquê. Ao longo do tempo, a observância da lei havia se tornado um fim em si mesma. A aparência de fidelidade religiosa substituiu a transformação interior. E, inevitavelmente, surgiu o julgamento: quem cumpre os rituais começa a olhar de cima para quem não os cumpre.

Essa forma de ver aqueles que se esforçam para ser santos como pessoas egoístas e que se acham superiores não acabou ali com os fariseus. Ela reaparece em qualquer comunidade religiosa onde a forma começa a importar mais do que o conteúdo. Aparece no tom condescendente de quem usa a fé como sinal de distinção social. Aparece na rigidez que confunde dureza com retidão. Também aparece na pessoa que cumpre cada prática religiosa observável, mas trata mal quem está à sua volta. E aparece no silêncio calculado, na bondade que só existe quando tem audiência.

As pessoas que foram feridas por essa versão da santidade não esqueceram. E, com razão, passaram a desconfiar. O problema é que, com o tempo, a desconfiança não ficou restrita à hipocrisia. Contaminou a própria ideia de santidade.

O que “santinho” diz sobre essa história

A palavra “santinho”, no português brasileiro, carrega o peso de tudo isso. Quando alguém é chamado de “santinho”, raramente está sendo elogiado. A expressão funciona como uma acusação velada: você está fingindo ser melhor do que é. Existe algo muito performático, no lugar onde deveria existir simplicidade e amor não fingido.

Esse uso da palavra é, em certo sentido, um registro histórico da distorção. Gerações de pessoas viram, de perto, religiosos que pregavam humildade e praticavam arrogância, que falavam de amor e exerciam controle, que exigiam dos outros o que não exigiam de si mesmos. O resultado foi uma associação: santidade é igual a falsidade. Quem se apresenta como santo provavelmente está escondendo algo.

Isso é uma conclusão injusta com a santidade real, mas é completamente compreensível como resposta à santidade falsa. 

O Élder Eyring, ao falar sobre o processo de se tornar mais santo, descreve algo que não tem nada de performático:

“A maior santidade não acontece apenas pedindo. Ela acontece ao fazermos o que for necessário para que Deus nos mude.” Esse tipo de mudança é silenciosa, interior e muitas vezes invisível. É o oposto exato do que a palavra “santinho” critica.

Santidade como ela foi planejada para ser

O contraste entre os dois tipos de santidade não poderia ser mais claro do que na própria vida de Cristo. Ele era o único ser perfeitamente santo que já viveu na Terra, e, ao mesmo tempo, era conhecido por se aproximar de leprosos, comer com cobradores de impostos, conversar com pessoas que a sociedade religiosa havia descartado. A santidade dele não criava distância. Criava aproximação.

Levítico 19, além das leis cerimoniais, traz mandamentos que soam surpreendentemente práticos: não explorar o trabalhador, não ser parcial no julgamento, não guardar rancor, cuidar do estrangeiro. A santidade que Deus descrevia ali não era algo que só ficaria no altar, era de relação com o próximo. Era sobre como se trata o outro no dia a dia, especialmente o outro que não tem poder para retribuir.

O objetivo é ter a natureza de nossa alma mudada de modo que não queiramos mais fazer o mal. Não é sobre aparência. Não é sobre cumprir uma lista. É sobre se tornar, genuinamente, uma pessoa diferente, mais paciente, mais honesta, mais compassiva, por meio de um processo contínuo de arrependimento, convênio e graça.

Reconsiderar o significado de santidade, então, não é um exercício acadêmico. É uma questão prática. Se a palavra ficou manchada pela hipocrisia de alguns, o caminho não é descartar o conceito, é recuperá-lo. É voltar ao que Deus tinha em mente quando construiu o tabernáculo, quando deu as leis, quando enviou Seu Filho. A santidade que Ele propõe não é para ser exibida. É para ser vivida, por dentro, um dia de cada vez, no silêncio de quem está sendo genuinamente transformado.

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